Domingo da Ressureição



 D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Meus caros amigos,

Neste domingo somos chamados a lançar o nosso olhar para o sepulcro vazio e contemplar o radiante mistério da ressurreição do Senhor. Ouvimos mais uma vez ecoar o confortador anúncio: " Cristo ressuscitou!". 

Com o Domingo da Ressurreição iniciamos um novo período litúrgico, o tempo pascal. Páscoa significa “passagem”. A origem desta festa perde-se na noite dos tempos. Inicialmente, era uma festa de pastores, que no início da primavera, imolavam um cordeiro do rebanho. Os hebreus transformaram esta festa pastoril no “memorial” da libertação do Egito. Era imolado o cordeiro pascal, sinal da “passagem” de Deus, que fez passar o povo eleito da escravidão para a terra da liberdade. Para os cristãos é a festa principal do ano litúrgico, em que se “comemora” a morte de Cristo na cruz e a sua Ressurreição. 

Ao celebrarmos a Ressurreição do Senhor, a liturgia nos recorda as palavras dirigidas pelo anjo às mulheres que choravam ao lado do túmulo vazio. Elas, como recorda o Evangelho, foram de manhã cedo ao sepulcro onde receberam do anjo a notícia que modificou o decurso da história: "Não vos assusteis. Procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui!" (cf. Mc 16, 6). É precisamente um anjo que, do sepulcro vazio, dirige a primeira mensagem às mulheres que ali chegam para completar a inumação do corpo de Jesus. 

Além desse momento da Ressurreição, os anjos estão presentes em todas as ocasiões importantes da vida de Jesus. Anunciam o Seu nascimento (cf. Mt 1,20; Lc 1,26; 2,9), guiam a Sua fuga para o Egito e o retorno à Pátria (cf. Mt 2,13.19), servem-Lhe de conforto no final das tentações no deserto (cf. Mt 4,11) e na hora da paixão (cf. Lc 22,43); no fim dos tempos, estarão ao lado do Redentor no momento do Juízo sobre a história e o mundo (cf. Mt 13,41). Os anjos, portanto, estão ao serviço dos planos de Deus nos momentos fundamentais da história da salvação. Como enviados de Deus, funcionam como mensageiros da Sua vontade redentora. 

Às mulheres, que foram ao sepulcro ao alvorecer do primeiro dia após o sábado, disse o anjo: “Não está aqui, pois ressuscitou” (Mt 28, 5). E elas, “com grande alegria, correram” (Mt 28, 8) a repetir este anúncio aos discípulos. Para os discípulos, tímidos e desalentados, este comunicado do mensageiro celeste, que se tornou ainda mais evidente pelas aparições do Ressuscitado.

Hoje é um anjo que guia a nossa reflexão sobre o mistério da ressurreição de Jesus. Diz ainda o anjo às mulheres que tinham ido ao sepulcro: “Porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo?” (cf. Lc 24,5). O Anjo convida-nos a não procurar um vivo entre os mortos. Destas suas palavras, podemos tirar um ensinamento: nunca cansarmos de procurar Cristo ressuscitado, pois Ele dá a vida em abundância àqueles que O encontram. As próprias mulheres do Evangelho, depois de um receio inicial, sentem uma grande alegria quando encontram o Mestre vivo (cf. Mt 28,8-9). 

O texto do Evangelho nos fala exatamente do primeiro impacto e das primeiras testemunhas: Maria Madalena, Pedro e o discípulo que Jesus amava. Madalena, enquanto mulher, pertencia à categoria de pessoas discriminadas, sem credibilidade oficial para os seus testemunhos. Ela é a primeira personagem a entrar em cena. É primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, quando ainda o sol não tinha nascido, na manhã do primeiro dia da semana. Este “primeiro dia” nos faz lembrar o início de uma nova realidade, um novo tempo, o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

Maria Madalena foi a primeira pessoa que Deus escolheu para dar a notícia a Pedro e ao outro discípulo: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram” (Jo 20,2). Pedro e o outro discípulo, onde a tradição aponta como o evangelista João, dirigiram-se ao sepulcro, mas João chegou primeiro. E nos diz o texto bíblico que ele “viu e acreditou” (Jo 20, 8).
Várias vezes vamos ver lado a lado nos evangelhos as figuras de Pedro e João. Eles aparecem juntos em várias circunstâncias: na última ceia é o “discípulo amado” que percebe quem está do lado de Jesus e quem O vai trair (cf. Jo 13,23-25); na paixão, é ele que consegue estar perto de Jesus no átrio do sumo sacerdote, enquanto ocorre a traição de Pedro (cf. Jo 18,15-18.25-27); é ele que está junto da cruz quando Jesus morre (cf. Jo 19,25-27); é ele quem reconhece Jesus ressuscitado nesse vulto que aparece aos discípulos no lago de Tiberíades (cf. Jo 21,7). Nas outras vezes, o “discípulo amado” levou sempre vantagem sobre Pedro. Aqui, isso irá acontecer outra vez: o “outro discípulo” correu mais e chegou ao túmulo primeiro que Pedro (o fato de se dizer que ele não entrou logo pode querer significar a sua deferência para com Pedro); e, depois de ver, “acreditou” (o mesmo não se diz de Pedro).

Em geral, Pedro é apresentado nos Evangelhos como o discípulo obstinado, para quem a morte significa fracasso e que se recusa a aceitar que a vida nova passe pela humilhação da cruz (Jo 13,6-8.36-38; 18,16.17.18.25-27; cf. Mc 8,32-33; Mt 16,22-23). Ele é, em várias situações, o discípulo que tem dificuldade em entender os valores que Jesus propõe, que raciocina de acordo com a lógica do mundo e que não entende que a vida eterna e verdadeira possa brotar da cruz. Na sua perspectiva, Jesus fracassou, pois insistiu – contra toda a lógica – em servir e em dar a vida. Para ele Jesus morreu e o caso está encerrado. A eventual ressurreição de Jesus é, pois, uma hipótese absurda e sem sentido.

Ao contrário, o “outro discípulo” é aquele que está sempre próximo de Jesus, que se identifica com Jesus, que adere incondicionalmente aos valores de Jesus, que ama Jesus. Nessa comunhão e intimidade com Jesus, ele aprendeu e interiorizou a lógica de Jesus e percebeu que a doação e a entrega são um caminho de vida. Para ele, faz todo o sentido que Jesus tenha ressuscitado (“viu e acreditou” - vers. 8), pois a vitória sobre a morte é o resultado lógico do dom da vida, do amor até ao extremo.

O discípulo que Jesus amava viu aquilo que Pedro via: um túmulo vazio, com as ligaduras e o sudário… Mas João acreditou. Por quê esta diferença na atitude dos dois discípulos? O amor de Pedro por Jesus também era grande. Mas com a tríplice negação, o seu amor tinha necessidade de ser confirmado, purificado, perdoado. João, ele, o único entre os apóstolos, ficou até ao fim. Deixou-se invadir por um amor sem falhas.

Mas, posteriormente, confortado pela certeza da Ressurreição de Cristo e repleto do Espírito Santo dirá Pedro em sua pregação sobre Jesus: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judéia, a começar pela Galiléia... Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez... e mataram-no... Deus ressuscitou-O ao terceiro dia... Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É dele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: “quem acredita nele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados” (Cf. At 10,34ss). E movidos pelos Espírito Santo, eles, juntamente com os demais apóstolos, percorrerão depois os caminhos do mundo para fazer ressoar o jubiloso anúncio pascal. 

Que todos nós possamos fazer esta mesma experiência espiritual que fizeram Maria Madalena, João e Pedro, acolhendo no coração, nas casas e nas famílias o feliz anúncio da Ressurreição: “Cristo ressuscitou e vive no nosso meio, Aleluia!”.

E, a partir da solene Vigília pascal, volta a ressoar o cântico do Aleluia, palavra hebraica universalmente conhecida, que significa "Louvai o Senhor". O aleluia desabrochou nos corações dos primeiros discípulos de Jesus naquela manhã de Páscoa, em Jerusalém... Deixemos que o aleluia pascal se imprima profundamente também em nós, como expressão de uma vida de união com o Cristo Ressuscitado, a quem devemos louvar e agradecer pelas maravilhas que Ele operou em nós. Assim seja. 

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