PROCUREM SABER!

Marcelo Madureira (humorista)


Copa de 90, Roma, Itália. Naquele Mundial trabalhava para O Globo escrevendo as crônicas do Agamenon Mendes Pedreira, enquanto o Hubert, meu parceiro na empreitada, fazia a cobertura no Brasil. Para um escritor a cobertura da Copa é uma coisa muito divertida, uma festa permanente, principalmente para quem gosta de futebol. Durante uns dois meses dividia o quarto com o Nelson Motta e o Ricardo Boechat. Testemunhamos e protagonizamos histórias impagáveis. Uma vez, terminado o serviço, Boechat e eu ficamos de bobeira, no centro de imprensa. Estávamos ali, relaxando quando, de repente, vem chegando o Pelé. Em volta do Rei do Futebol vinha uma multidão. Era sempre assim, onde estava o Pelé, era confusão, gente, gritaria. Todos em volta do ídolo. Deitado numa espreguiçadeira, com uma cerveja gelada na mão, comentei com o Boechat:
- Pô, olha lá a confusão. Deve ser uma @#$ ser o Pelé…
Ao que o sábio e experiente jornalista retrucou na hora:
- Marcelo, uma @#$  é ser caixa do Bradesco…

Com todo o respeito pelos caixas do Bradesco, o Boechat tem toda a razão.

Ser famoso, ou melhor, ser famoso por ser querido, respeitado, adorado por obra ou ações feitas, é maravilhoso. Digo isso porque Adolf Hitler, Stalin e outros ficaram famosos e, até por isso mesmo, são odiados por todos até hoje, com exceção, é claro, dos imbecis de sempre.

Ser famoso e querido é um tremendo bônus, mas tem o seu ônus também. De fato, se você é famoso não pode ir a determinados lugares e fazer determinadas coisas que um caixa do Bradesco faz e ninguém repara. Não pode tirar meleca no sinal, discutir com a patroa na rua, dar cantada em mulher alheia, furar fila e outras pequenas transgressões pois, você sabe, todo mundo está reparando.

Afinal, o famoso é uma pessoa querida e admirada por todos e basta a sua presença para chamar atenção. Eu já fui famoso, eu sei o que é isso. Sou humorista e, quando estava de mau humor, chateado (afinal, também sou um ser humano, não duvidem!) preferia ficar em casa. Para um fã, o encontro com o seu ídolo é um evento único na vida. O artista tem que entender isso e acolher a admiração do seu fã da melhor maneira possível. Pode ser um autógrafo, uma foto, uma troca de palavras, um carinho, tudo vale, pois o fã é o maior patrimônio de um artista. Tem gente que exagera, é certo. Pede para contar piada, dar cambalhota, telefonar para a mãe, mas estes são raros.

Ser famoso, ser querido e admirado, portanto, e como tudo na vida, tem um preço também. As pessoas querem saber a sua história, conhecer a sua vida. Pesquisadores e estudiosos podem se servir de uma biografia para aprofundar o conhecimento acerca de um momento histórico. O comportamento explica o ser humano. A biografia é a história da vida de uma pessoa. E a História-Ciência também se compõe da história da vida das pessoas, principalmente se suas obras mudaram a cultura de todo um povo.

Portanto, a vida daqueles que foram e/ou ainda são relevantes para a cultura de uma sociedade pode, e deve, ser objeto do escrutínio de pesquisadores. De suas virtudes e defeitos, rigorosamente, sem contemplação e, principalmente, sem censura. Vai dizer que o comportamento privado de uma pessoa não ajuda a explicar a obra, seus atos e realizações? Ora se não…

Àqueles que são aproveitadores e caluniadores, a justiça oferece os canais adequados para uma reparação. Mas a maior punição para a má fé vem da própria sociedade pois, todos sabem, a mentira tem pernas curtas. O que não se pode é tirar o todo por uma minoria de aventureiros disfarçados de biógrafos.

O aspecto financeiro da demanda é tão vil e deplorável que me recuso a argumentar. Por que tudo neste “mundo contemporâneo de hoje em dia” tem que ser monetizável? Quem escreve sabe o que é o mercado editorial. Não conheço nenhum editor, escritor ou livreiro na lista de milionários da Forbes. No Brasil, então, só conheço uns dez escritores que conseguem viver só de livros.

Vamos dar nome aos bois, ou às vacas. Como queiram. Quem ganha financeiramente com isso são os advogados espertinhos, empresários, procuradores gananciosos, esposas e ex-esposas, estes sim verdadeiros chupins da obra alheia.

Admiro as composições de Wagner, embora o compositor alemão fosse uma pessoa vil e preconceituosa. Li na sua biografia. Por sinal, não autorizada. Aprecio a poesia de Ezra Pound, embora a pessoa, não valesse grande coisa.

Admiro a obra de Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso, mas não compartilho das suas ideias. Neste momento, para mim, compartilham do mesmo saco.

Esta rapaziada aí está se levando muito a sério. E eu sempre desconfio de quem se leva muito a sério. Pois quem se leva muito a sério é porque tem muito a esconder.

Tenho dito.

fonte: http://www.casseta.com.br/madureira/2013/10/16/procurem-saber/

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