Contemplação na ação ou ação na contemplação?



Rodrigo Lavôr

Ainda que ambas expressões do título sejam corretas, quero sustentar porque prefiro a segunda com relação à primeira.
Os  jesuítas, em algum momento, definiram que a su vida era de "contemplação na ação". Luis Fernando Figari (fundador do Sodalício de Vida Cristã e do resto da Família Sodálite), séculos depois, disse que a vida do sodálite (membro do Sodalício) também é de "contemplação na ação" e, que sem tirar os momentos fortes de oração, a oração principal do sodálite é a "presença de Deus" ou, em termos usados pelos padres do deserto, o "memé Theós", a contante lembrança de Deus.
Todas estas coisas são tentativas válidas de pôr em categorias racionais a experiência espiritual de uma Ordem, de uma Sociedade de Vida Apostólica, de uma Família Espiritual e assim sucessivamente.
Não obstante, o assunto não é tão simples.
Comecemos perguntando-nos: O que é a ação?
Muitos dirão: é o ato de obrar. Mas, o que é obrar?
Antigamente, disseram que as pessoas contemplativas, maioritariamente, a dos conventos têm uma vida mística passiva ao passo que os contemplativos da ação têm uma vida mística ativa. Deste modo, alguns dirão que os fenômenos místicos de altíssima grandeza somente estariam reservados a freiras fechadas nas suas clausuras. Mas, não existe nada mais falso que isto.
Primeiramente, lhes sugiro ler a filosofia da ação do Maurice Blondel.
Logo, reflitamos um pouco:
Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Jesus, São Bernardo de Claraval, São Bento muito andaram pela Europa, por exemplo, e, foram místicos de grandíssima altura.
Santa Teresa de Jesus, além disto, tinha alguns êxtases lavando e fazendo brilhar as panelas do seu convento.
Pensemos no caso das irmãs conventuais de vida contemplativa. Será que estar ajoelhado diante do Senhor sacramentado, levantar-se, ajudar na cozinha, limpar a cela, rezar no coro não é ação? Claro que sim. Ao meu parecer, não existe este assunto de vida ativa e passiva. Também não existem as três etapas da classificação clássica da vida mística: purgativa, iluminativa, contemplativa. Todas elas vão juntas. Isto é mera classificação, válida em si mesma, mas classificação finalmente.
A vida irrompe, se manifesta, a vida não se deixa apreender.
Neste sentido, tanto as pessoas de vida "ativa" como as de vida "passiva", santas ou muito pecadoras, estão sujeitas a receber milagres, fenômenos místicos e tudo o que possamos fazer referência à vida espiritual. Se pensamos bem, o autor de tudo isto é um só: Deus e Ele faz o que Lhe apraz.
Sendo assim, ainda que eu poderia falar muitas coisas mais, quero deixar claro nestas linhas porque prefiro usar a expressão: "ação na contemplação". Tenho a impressão de que esta pode aplicar-se a qualquer pessoa estando na Igreja ou, inclusive, fora dela.
Entendo por "contemplação" o fato de repousar os olhos e o mais profundo do interior na meta. Em nosso caso, como cristãos, no Céu. Mas, no caso dos não cristãos, nas metas que eles consideram as mais elevadas. Assim sendo, completo o raciocínio.
Para um contemplativo cristão a visão do Céu, o anseio de ver a Nossa Mãe querida, de estar em comunhão com todos os santos, de reencontrar os familiares que estejam na glória de Deus,... é o que está sempre ou quase sempre ante os seus olhos, nos seus pensamentos, afetos e agir. Mas, a esta contemplação temos que acrescentar o atuar e, por conseguinte, a ação.
Naturalmente, contemplar, orar, pensar, sentir também são um tipo de ação interior, mas existe a necessidade de que obremos externamente, dado que somos seres bio-psico-espirituais.
Desta forma, o que obra na contemplação sempre atua contemplando e reúne a vida à fé no quotidiano. Segundo me consta, só Santa Bernadete de Soubirous foi capaz de experimentar o carinho maternal da nossa Mãe de forma física, além de Jesus, José e, acredito que os Apóstolos e alguns dos discípulos do Senhor Jesus.
No nosso caso, temos que ir pela via da "ação na contemplação" uma vez que parece que a nenhum de nós se nos deu o dom de receber toques da Virgem Santíssima. É curioso que, uma vez, um presbítero no seu impressionante zelo apostólico, me disse: "Rodrigo, agora você gosta mais do estilo contemplativo, mas quando você se torne mais apostólico, você gostará mais dos santos mais apostólicos. E aquele padre muito se enganou! Em primeiro lugar, durante toda a minha vida sempre fui muito apostólico. Logo, sempre gostei da vida mística e sigo querendo-a, ainda que eu não levite nem nada pelo estilo. E, por outro lado, apesar de que eu faça muito apostolado todos os dias, ainda que eu goste dos "santos ativos", gosto muito mais dos "santos contemplativos". Em todo o caso, até eu me pergunto agora: Que história é esta de santo de vida ativa? Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Assis, Santo Antônio de Pádua, Santo Tomás de Aquino, por exemplo, foram grandes místicos. Será que pode existir vida ativa sem uma forte mística interior? Karl Rahner, um dos grandes teólogos católicos do século XX, já dizia: "o século XXI ou será místico ou não será". Já outro teólogo muito famoso, Hans Urs Von Balthasar, proclamava "a teologia deve ser feita de joelhos". E notem que estes dois teólogos foram jesuítas de vida ativa!
O santo da minha maior devoção é São João Apóstolo, o vidente de Patmos; o que reclinou a cabeça no peito do seu Amado Senhor; o que reconheceu a Jesus ressuscitado no lago; o que permaneceu de pé ao lado da Virgem enquanto os outros fugiram; o que chegou antes de Pedro na tumba mas não entrou; o que recebeu a Maria como Mãe e "entre as suas coisas mais preciosas". E também gosto da Santa Rosa de Lima, da Madre Teresa de Calcutá, da Santa Teresa dos Andes, da Madre Beata Laura Montoya (quase santa), São João da Cruz, Santa Teresinha de Lisieux, São Martinho de Porres, do Padre Pio, santa Gemma Galgani e muitos mais santos de vida contemplativa os quais muito fizeram na vida do nosso mundo.

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