Volta o debate sobre a relação entre fé e política


No contexto das eleições nos Estados Unidos

Pe. John Flynn, L.C.

ROMA, domingo, 7 de novembro de 2010 (ZENIT.org) -

No contexto das eleições norte-americanas, voltou a ter força o debate sobre as relações Igreja-Estado e as crenças religiosas dos candidatos.

Os especialistas especularam sobre o modo como a afiliação religiosa afetaria as eleições, especialmente diante de assuntos tão controversos como a reforma da saúde e as mudanças nas leis de imigração.

No início de outubro, os sete bispos católicos do Estado de Nova York publicaram uma declaração para ajudar as pessoas a avaliarem em que candidatos votar. Os católicos - afirmavam - devem julgar os temas políticos através da lente da fé e não se guiar apenas pelo próprio interesse ou lealdade a um partido.

Os bispos mencionavam alguns temas, como os relacionados à vida, à guerra, à educação. É raro - admitiam - encontrar um candidato que esteja de acordo com a Igreja em todas as matérias, mas nem todas têm o mesmo peso.

Após recomendar o documento de 2008 intitulado "Formar as Consciências dos Cidadãos Crentes", publicado pelos bispos dos EUA, os prelados de Nova York indicavam: "O direito inalienável a viver de toda pessoa humana inocente pesa mais que outras preocupações em que os católicos possam usar seu juízo prudente, tais como enfrentar melhor as necessidades dos pobres ou aumentar o acesso à saúde para todos".

Animavam os católicos a tomar tempo para estudar as posições dos candidatos e concluíam com uma lista de perguntas que as pessoas deveriam se fazer antes de decidir em quem votar.

A questão do impacto da fé na política é um tema a que Bento XVI se refere sempre. Em uma mensagem de 12 de outubro ao cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, o Papa afirmou que é necessário que a política e a sociedade se guiem pela consideração do bem comum. Os valores cristãos são úteis não só para determinar aquilo que abarca este bem comum, mas trazem uma contribuição indispensável, acrescentava.

No geração de políticos

Na mensagem enviada com motivo da Semana Católica Social Italiana, Bento XVI pedia uma nova geração de católicos que se apresentasse e se mostrasse na política. Esta participação deveria se basear em uma sólida formação intelectual e moral, que permitisse a formação de princípios éticos baseados em verdades fundamentais, de modo que as decisões não se baseassem no egoísmo, na avareza ou na ambição pessoal.

Em um momento em que os políticos costumam cair no desprezo ou no ridículo, o pontífice indica que "o comportamento sócio-político, com os recursos e atitudes espirituais que exige, continua sendo uma alta vocação, à qual a Igreja convida a responder com humildade e determinação".

Quanto ao papel da Igreja, o Papa afirma que ela "tem um legado de valores que não são coisas do passado, mas constituem uma realidade muito viva e atual, capaz de oferecer uma pauta criativa para o futuro de uma nação".

Esta mensagem era escrita pelo Papa após seu importante discurso sobre as relações Igreja-Estado durante sua recente visita à Inglaterra. Dirigindo-se aos políticos e líderes no Westminster Hall, em Londres, Bento XVI afirmou que a religião não é um problema a ser resolvido pelos legisladores, mas que ela tem uma contribuição vital a dar à política.

O Santo Padre assinalou que era inadequado basear o futuro de uma nação na consideração de curto prazo de mera natureza política e animou seus ouvintes a considerar a importância da dimensão ética na política.

Essa dimensão não tem de depender de uma fé particular, mas pode se basear na formulação da razão dos princípios morais objetivos. Não é que religião imponha suas crenças. Ela ajuda a guiar a razão para a descoberta dos princípios éticos. Portanto, a religião precisa da assistência da razão para se proteger de formas distorcidas como o sectarismo e o fundamentalismo.

A religião tem um papel legítimo na vida pública, indicou Bento XVI, e não deveria ser marginalizada.

Apenas alguns dias depois, Bento XVI expressou pontos de vista similares ao novo embaixador alemão. Em seu discurso de 13 de setembro, o Papa afirma que se se abandona a fé em um Deus pessoal, a diferença entre o bem e o mal se obscurece. Isso conduz a que as ações se dirijam por considerações de interesse pessoal e poder político.

Fundamentos da relação fé cristã e política

Os cristãos convictos dão testemunho à sociedade de que é legítima uma ordem de valores. Neste sentido, o cristianismo tem um papel fundamental, "ao colocar os fundamentos e formar as estruturas de nossa cultura", explica o Papa.

Ele lamenta a crescente tendência a eliminar os conceitos cristãos de casamento e família da consciência da sociedade. O Papa assinala que a Igreja não pode dar sua aprovação a iniciativas legislativas que aprovem modelos alternativos à vida matrimonial e familiar.

Fazendo referência ao campo da biotecnologia e da medicina, o Papa afirma que o que se necessita é uma cultura da pessoa fundada na lei natural que proteja e defenda contra as violações da dignidade humana.

Este sólido fundamento proporciona uma defesa contra a tendência ao relativismo, um perigo contra o qual o Papa advertiu em numerosas ocasiões. Ele volta a falar sobre isso no discurso de 8 de setembro aos membros da Mesa da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa.

É imprescindível - declarou - defender a validade universal do direito à liberdade religiosa. Se os valores, direitos e deveres não têm um fundamento objetivo racional, não podem oferecer um guia para as instituições internacionais.

A fé cristã é uma força positiva na busca de uma fundamentação para esses direitos na dignidade natural da pessoa, ajudando a razão a buscar uma base para esta dignidade, afirmou o Papa.

Contribuição da religião

Nessas últimas declarações sobre o papel da religião na política, o Papa fez referência a sua encíclica de 2009, Caritas in veritate. Neste documento, ele rechaça a afirmação de que a Igreja interfere na política: "tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação" (n. 9).

Referindo-se ao desenvolvimento das nações, Bento XVI adverte quanto à promoção da indiferença religiosa ou do ateísmo, algo que cria obstáculos para o nosso verdadeiro desenvolvimento, porque torna impossível que os países se beneficiem de vitais recursos espirituais e humanos. Os países desenvolvidos economicamente exportam em ocasiões sua visão redutiva da pessoa humana para os países pobres.

Se a sociedade prescinde da contribuição da religião, pode cair no erro de prestar demasiada atenção às perguntas sobre "como", e não o suficiente para as muitas questões do "porquê" que estão na base da atividade humana, afirma o Papa.

"Quando prevalece a absolutização da técnica, verifica-se uma confusão entre fins e meios: como único critério de ação, o empresário considerará o máximo lucro da produção; o político, a consolidação do poder; o cientista, o resultado das suas descobertas (n. 71).

Para evitar isso, é necessário que o cristianismo tenha um lugar na vida pública e que se unam razão e fé, purificando-se uma à outra, diz o Papa no número 56 da encíclica. Se não há este diálogo, a humanidade paga um enorme preço. Algo digno de recordar da próxima vez que alguém disser que a religião deve ficar fora da política.



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