Bispos do Reino Unido comparam os defensores da disciplina moral católica aos antigos hereges rigoristas


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Quase ao mesmo tempo em que o Cardeal Raymond Burke afirmou em uma entrevista que os defensores do ensinamento moral da Igreja – e a prática de impedir as pessoas em uniões sexuais irregulares de receberem a Comunhão – estão sendo marginalizados dentro da Igreja, os bispos católicos da Inglaterra e do País de Gales publicaram um documento para o clero que praticamente acusa esses católicos de incorrerem na antiga heresia donatista.

No “Documento de Reflexão para o Clero”, os bispos ingleses parecem seguir a linha do Cardeal Walter Kasper e seus seguidores, ao dizer: “Não cabe a nós tomar decisões apressadas ou prematuras” sobre as pessoas que estão vivendo em pecado sexual.
“Encontramos pessoas em muitos estágios diferentes da vida familiar que muitas vezes não são claramente definidos desse modo, nem encontram-se na ordem ‘tradicional’ na qual costumávamos pensar”, disseram eles.

Os bispos chegam a fazer uma acusação levemente velada de heresia contra aqueles (como o Cardeal Burke, o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Müller, o Cardeal George Pell e outros) que se recusaram a seguir a linha de Kasper. O documento cita Santo Agostinho, Doutor da Igreja que viveu no século IV, que, dizem os bispos, “oferece-nos uma maneira de olhar para a Igreja de sua época a qual ainda é relevante hoje”.

Santo Agostinho escreveu sobre o problema enfrentado pela comunidade cristã no final de um período de perseguição sob o Imperador Diocleciano. O santo recomendou clemência e perdão para aqueles que se arrependeram de ter denunciado publicamente sua fé em Cristo sob a ameaça de morte. Isto estava em oposição à facção donatista, que afirmava que o arrependimento era impossível e defendia a excomunhão.

“Os seguidores de Donato não queriam contato algum com católicos que acreditavam estar contaminados e que não poderiam representar a Igreja de Cristo. Eles consideravam a si mesmos os únicos representantes da verdadeira Igreja por causa de sua firmeza durante a perseguição”, escrevem os bispos ingleses.

“Santo Agostinho afirmava que os bons católicos não seriam afetados pelos pecadores se não imitassem o comportamento de tais pessoas”, continua o documento.

“A Igreja é chamada a proclamar a paz de Cristo ao seu povo e ao mundo. As pessoas precisam e querem ouvir essa proclamação em suas vidas muitas vezes confusas e fragmentadas”, diz o documento.

Continua a haver controvérsia no mundo católico em torno da chamada “Proposta Kasper” para abandonar a prática da Igreja de negar a Comunhão àqueles que se encontram em situações sexuais irregulares públicas, com os lados irreconciliáveis alinhando-se em um conflito que provavelmente só aumentará ao longo deste ano antes do Sínodo.

A Igreja, baseando-se nas palavras do próprio Cristo nos Evangelhos de Lucas e Mateus, não reconhece a existência do divórcio e afirma que qualquer pessoa que se “case” novamente depois de um divórcio civil está em estado de adultério. Na verdade, qualquer pessoa que se envolve em qualquer tipo de atividade sexual fora do matrimônio, incluindo a atividade homossexual, não pode receber a Comunhão até que se arrependa, algo que a Igreja sempre entendeu que requer uma mudança de comportamento.

Porém, o Cardeal Kasper e os seus seguidores têm insistido que a permanência da disciplina perene da Igreja é um sinal de falta de “misericórdia”, e freqüentemente citam como justificativa a situação moderna de divórcio amplamente difundido. Outros, numa mesma tendência, argumentam que permitir que essas pessoas recebam a Sagrada Comunhão, após um “período de penitência”, eventualmente as convenceria, de acordo com o “princípio do gradualismo”, a se casarem ou regularizarem suas vidas sexuais dentro da Igreja.

Em seu Documento de Reflexão, os bispos ingleses afirmaram que os documentos do Sínodo de 2014 conclamam o clero a “ecoarem o a própria abordagem de Jesus” para a “confusão da vida familiar no mundo contemporâneo”.

“Num mundo que se desenvolve rapidamente, particularmente quando se diz respeito à autonomia moral, precisamos de paciência e tolerância antes que a clareza e a verdade surjam nas vidas das pessoas”, disseram os bispos.

Os dois documentos publicados pelo Sínodo de outubro de 2014 foram duramente criticados por muitos que afirmaram que eles são uma tentativa de uma facção “progressista” de desviar a Igreja de seu ensinamento moral tradicional sobre a sexualidade. Em sua entrevista ao Le Figaro, o Cardeal Burke disse que o controverso relatório intermediário parece ter sido escrito antes que os padres sinodais sequer tivessem iniciado o debate sobre os vários temas.

O relatório intermediário, que supostamente foi escrito pelo teólogo liberal italiano Arcebispo Bruno Forte, sugeriu que a Igreja mudasse sua prática e “aceitasse e valorizasse” a “orientação” homossexual, um tema que sequer havia sido parte das discussões dos bispos. O Cardeal Burke comentou que a homossexualidade “não tem relação alguma com o tema do matrimônio”.

Ao final do seu documento para o clero, os bispos ingleses fazem uma série de perguntas aos seus sacerdotes a respeito da prática pastoral em nível paroquial. Eles perguntam: as pessoas em “segundas uniões” em suas paróquias “se aproximam dos sacramentos?”

“Como vocês as ajudam a se aproximarem do tribunal do matrimônio? Há casos nos quais vocês acham que elas podem ser recebidas para a Sagrada Comunhão, embora sua situação objetiva não tenha sido remediada?”

O documento diz o seguinte a respeito daqueles que têm atração por pessoas do mesmo sexo: “A Igreja aceita pessoas que sentem atração por outras do mesmo sexo, embora não reduza sua identidade a esse único aspecto, e as chama a viverem uma amizade casta.”

“Como vocês atendem as pessoas que têm tendências homossexuais e como as ajudam a integrarem sua orientação sexual? Qual é a abordagem de vocês quando pessoas vivem relacionamentos com outras do mesmo sexo aproximam-se da Igreja para serem bem recebidas e incluídas?”

fonte: Notifam

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