Os leigos sob Papa Francisco




Mário Saturno*

Papa Francisco continua surpreendendo, foi eleito a personalidade do ano pela revista Time, uma das mais importantes revistas da língua inglesa. Agora, o papa foi capa da revista Rolling Stone. Certamente, vai causar boa impressão ver o que pensa o Papa sobre os leigos, basta uma olhada no Evangelii Gaudium.

Para o papa, todos somos convidados a aceitar o chamado do Senhor e devemos sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho. Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede (§20). Na Palavra de Deus encontramos muitos exemplos do chamado, Deus envia seus escolhidos para uma missão (cf. Gn 12, 1-3; Ex 3, 10, 17; Jr 1, 7). Aliás, enviar, em grego, é “apostolai”, donde "apóstolos".

A imensa maioria do povo de Deus é constituída por leigos. Ao seu serviço, está uma minoria: os ministros ordenados. Cresceu a consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja. Apesar de se notar uma maior participação de muitos nos ministérios laicais, este compromisso não se reflete na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e econômico; limita-se muitas vezes às tarefas no seio da Igreja, sem um empenhamento real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade. A formação dos leigos e a evangelização das categorias profissionais e intelectuais constituem um importante desafio pastoral (§102).

Quando mais precisamos dum dinamismo missionário que leve sal e luz ao mundo, muitos leigos temem que alguém os convide a realizar alguma tarefa apostólica e procuram fugir de qualquer compromisso que lhes possa roubar o tempo livre. Hoje, por exemplo, tornou-se muito difícil nas paróquias conseguir catequistas que estejam preparados e perseverem no seu dever por vários anos. Mas algo parecido acontece com os sacerdotes que se preocupam obsessivamente com o seu tempo pessoal. Deus nos convoca para a missão e nos torna completos e fecundos. Alguns resistem a provar até ao fundo o gosto da missão (§81).

Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (§49).


(*) Congregado mariano, pesquisador do INPE.

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