Conectados, ativos e fiéis: o perfil dos jovens da JMJ

 

 


 Francisco Borba



Desde 1987, quando foram criadas por João Paulo II, as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) se tornaram o maior evento internacional do catolicismo contemporâneo. Mais do que isso, elas são a representação mais emblemática do novo catolicismo do mundo globalizado e pós-moderno.

Reunindo centenas de milhares de jovens de diferentes países, elas combinam a capilaridade e a vida comunitária tradicionais da Igreja das paróquias e pequenas comunidades com a comunicação pela Internet, o Facebook e o Twitter, unindo jovens de países diferentes numa rede mundial que dá novo sentido e alcance ao termo católico (que vem do grego e significa “universal”).

Pouca gente tem noção da fantástica organização envolvida numa JMJ. Começa com o convite e a capacidade de envolver os jovens, em suas comunidades de origem, numa aventura internacional, que não deixa de ser cara e com muito menos atrativos lúdicos que uma viagem de férias convencional.

Atravessar o mundo para ver um velho papa? Para passar uma noite acordado em uma vigília de oração ao ar livre, cercado de milhares de outros jovens igualmente e desconfortavelmente instalados? Mesmo com o entusiasmo juvenil, é forçoso reconhecer que estamos diante de um grande ideal e de uma admirável capacidade de mobilização.

Depois temos a organização no país. Um evento de massa que supera Copas do Mundo, voltado a jovens (o que sempre aumenta a preocupação e a responsabilidade da organização). Mas o que mais impressiona, para quem conhece as JMJ, são as chamadas “pré-jornadas”, um evento que acontece na semana anterior à jornada propriamente dita, na qual estes milhares de jovens se espalham pelo país-sede, acolhidos em casas de família, conhecendo a realidade social e cultural do país, interagindo com jovens e famílias locais. Aqui se vê o diferencial de uma experiência religiosa e comunitária, nestas milhares de famílias que acolhem voluntária e gratuitamente os peregrinos de outros países e nos novos relacionamentos que nascem desta experiência de acolhida e convivência.

Nasce daí um novo tipo de católico. Ele é fiel à convivência e à militância em pequenas comunidades, tem uma religiosidade fortemente marcada pela afeição ao papa e pela boa formação doutrinal. Mas também está conectado às novas mídias, é capaz de rapidamente se comunicar e criar ocasiões de agregação com outros como ele, conhece e se movimenta com desenvoltura na cultura juvenil pós-moderna, com suas tribos e sua fluidez.

Pierre-Yves Gomez é professor universitário em Lyon e articulista do jornal “Le Monde”, membro da Comunidade Emanuel, um destes novos movimentos católicos que está no coração das JMJs.

Analisando as recentes manifestações políticas na França, que chegaram a reunir mais de 1 milhão de pessoas em Paris, vê claramente a influência desta nova juventude católica.

Assim como os R$ 0,20 no Brasil, foi um detalhe que gerou as manifestações: a lei de aprovação do “casamento gay”, visto como um gesto demagógico de um governo que não conseguia enfrentar os problemas da maioria da população. Mas esta fagulha gerou uma onda de indignação moral que sacudiu a França, com a mesma rapidez e espontaneidade das manifestações de junho e julho no Brasil. E, no caso francês, a jovem militância católica, agindo de forma autônoma e usando as novas mídias, teve um papel fundamental.

AS JMJs são mais que um grande evento de massa. Num mundo individualista e em crise, são escolas de vivência comunitária, de ação solidária e em rede, de busca de sentido e de protagonismo juvenil. São uma demonstração de como a Igreja Católica consegue se reinventar e permanecer atual, sem perder sua tradição e seus valores.

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