A Quarta-feira de Cinzas e a Quaresma


Souza Júnior, 
da Associação de Escoteiros Católicos de Santo André (SP)


Findo o Ciclo do Natal, o qual é composto pelo Advento e o Tempo do Natal, tem-se início o Ciclo da Páscoa, composto pela Quaresma e o Tempo Pascal.
A Quaresma tem o seu início no Primeiro Domingo da Quaresma, e não na Quarta-feira de Cinzas, como alguns pensam; contudo, neste resumo trataremos tanto das Cinzas quanto da Quaresma, pois ambas têm capital importância na vida espiritual católica.

A Quarta-feira de Cinzas

Memento homo quia pulvis est, et in pulvere reverteris. (Gn 3, 19).
Com o nosso orgulho desobedecemos a Deus e, em Sua infinita misericórdia, Deus quis poupar a humanidade, mas com a dura condição de sofrer a morte (Gn 3, 19). Porém, os homens se esqueceram deste aviso e voltaram a ofender a Deus, assim, se queremos perseverar no bem, humilhemo-nos, aceitemos a sentença, e consideremos esta vida como um caminho mais ou menos curto que termina na sepultura. Para nos ajudar nesta luta do espírito contra a carne, e nos armar para os exercícios da milícia espiritual, a Santa Igreja julgou oportuno antecipar quatro dias o jejum quaresmal, abrindo-o pela imposição das cinzas na fronte culpável de seus filhos.
A cinza estabelece a relação entre a poeira de um ser material visitado pelo fogo, e o homem pecador, cujo corpo deve ser reduzido ao pó, pelo fogo da Justiça Divina, por isso, o seu uso como símbolo de humilhação e de penitência é bem anterior a esta instituição. Em verdade, o uso das cinzas tem origem e fundamento a partir de relatos bíblicos, como se vê no Antigo Testamento: Jó, Davi depois de seu pecado, os ninivitas, etc.; para salvar pelo menos a alma do fogo da vingança celeste, o pecador recorria à cinza e, reconhecendo sua triste fraternidade com ela, sentia-se mais protegido da cólera d’Aquele que resiste aos orgulhosos e perdoa os humildes.
Desde os seus começos, o uso litúrgico das cinzas na quarta-feira da qüinquagésima, não parece ter sido aplicado a todos os fiéis, mas somente aos pecadores públicos[i]. Antes da Missa deste dia, os culpados se apresentavam na igreja, onde o povo estava reunido. Os padres recebiam a confissão dos seus pecados, depois os cobriam com cilícios e espalhavam cinzas sobre suas cabeças. Depois desta cerimônia, o clero e o povo se prostravam em terra e recitavam em alta voz os sete salmos penitencias[ii]. Em seguida, havia uma procissão, na qual os penitentes andavam descalços. Na volta, eles eram solenemente expulsos da igreja pelo Bispo. Em seguida, o clero cantava vários responsórios tirados do Gênese, referentes ao castigo do homem. Depois as portas da igreja eram fechadas, e os penitentes só poderiam entrar depois de serem absolvidos na Quinta-feira Santa.
Depois do século XI, a penitência pública começou a cair em desuso; porém, o uso de impor a cinza a todos os fiéis foi tornando-se cada vez mais generalizado, e tomou lugar entre as cerimônias essenciais da liturgia romana. Antigamente os fiéis recebiam as cinzas descalços e, ainda no século XII, o papa e os cardeais iam descalços na procissão de Santa Anastácia e Santa Sabina, lugar da estação.
Na atual disciplina da Igreja, a Quarta-feira de Cinzas ainda é dia de jejum[iii] obrigatório para todos com idade entre 18 e 65 anos, devendo também ser observada a abstinência de carne vermelha.

O tempo da Quaresma

Dá-se o nome de Quaresma ao jejum de quarenta dias pelo qual a Igreja se prepara para celebrar a festa da Páscoa; e a instituição deste jejum solene remonta aos primeiros tempos do cristianismo. O próprio Nosso Senhor inaugurou-o com o Seu exemplo, jejuando quarenta dias e quarenta noites no deserto.
O homem é pecador: eis porque, mesmo depois dos mistérios divinos pelos quais Cristo operou nossa salvação, a expiação faz-se ainda necessária. Por isso os Apóstolos, vindo em socorro da nossa fraqueza, estabeleceram, desde o começo do cristianismo, que a solenidade da Páscoa fosse precedida de um jejum universal. E, fundando-se no exemplo do Salvador, estabeleceram que tal jejum durasse quarenta dias. A instituição apostólica da Quaresma nos é atestada por São Jerônimo, São Leão Magno, São Cirilo de Alexandria, Santo Isidoro de Sevilha e outros[iv].
Malgrado as variações dos séculos, a disciplina da Igreja conservou como essencial do jejum a redução da alimentação ordinária a uma só refeição por dia, acompanhada da abstinência de carne, alimento não tão necessário para a vida. O uso dos judeus, no Antigo Testamento, era de diferir a única refeição do dia de jejum até o pôr do sol, e este costume passou para a Igreja e chegou até mesmo ao ocidente, onde foi guardado por muito tempo de um modo inviolável. Como a disciplina da Igreja foi sendo gradualmente mitigada no jejum, no fim do século XIII vemos o franciscano Ricardo Middleton ensinar que os fiéis que comiam na hora da sexta (meio-dia) não eram transgressores do jejum, pois, dizia, este uso já prevaleceu em vários lugares, e a hora na qual se come não é necessária à essência do jejum, mas sim a unidade da refeição[v].
O jejum consiste essencialmente em se tomar uma só refeição no dia, mas em razão do longo intervalo de meio-dia a meio-dia, em socorro da fraqueza humana, a Igreja autorizou a chamada colação. Esta tem sua origem nos costumes monásticos, pois, como na Quaresma os monges só podiam comer ao cair do sol, e tinham trabalhos pesados no campo durante o dia, os abades permitiam, com poder fundado na Regra de São Bento, que os religiosos tomassem uma taça de vinho antes de Completas para restaurar as suas forças. Como o vinho era tomado em comum durante a leitura da tarde, chamada conferência, na qual se liam as Colações de Cassiano, esse alívio do jejum monástico recebeu o nome de colação. Depois viu-se que beber só o vinho podia ser prejudicial à saúde, então, introduziu-se um pedaço de pão na colação.
Tais mitigações introduzidas nos claustros, não tardaram em estender-se aos fiéis e, pouco a pouco, além do pedaço de pão, permitiu-se também comer verduras, frutas, etc., mas sempre de modo que a colação não se transformasse em refeição.
Como crescesse por todas as partes o relaxamento entre os fiéis, que pediam dispensas indiscretas e sem motivos da observância da Quaresma, o Papa Bento XIV, em 1741, escreveu uma encíclica, na qual se lamentava aos bispos: “A observância da quaresma é a característica da nossa milícia; é por ela que nós nos distinguimos dos inimigos da cruz de Jesus Cristo; por ela nos afastamos das chamas da cólera divina… Se esta observância se relaxa, é um detrimento para a glória de Deus, uma desonra para a religião católica, um perigo para as almas cristãs.”.
Era tão grande o respeito pela Quaresma que se proibiam os espetáculos, divertimentos, a caça e até que se abrissem os tribunais. Assim vemos como o ano litúrgico influenciava na vida da sociedade cristã[vi].

A mística da Quaresma

A Igreja quis que este período de recolhimento e penitência fosse marcado pelas circunstâncias mais próprias a avivar a fé dos fiéis, e a sustentar sua constância na obra da expiação anual.
1. Os quarenta dias.
Consideremos o número 40. Quarenta foram os dias em que a cólera divina fez chover sobre a terra, causando o dilúvio; durante quarenta anos o povo hebreu errou pelo deserto em castigo da sua ingratidão.
Dois homens, no Antigo Testamento, tiveram a missão de figurar em sua pessoa as duas manifestações de Deus: Moisés, que representa a Lei; Elias, que é o símbolo da Profecia. Ambos se aproximaram de Deus: o primeiro pelo Sinai, o segundo pelo Horeb; porém, ambos só obtiveram o acesso a deus depois de terem sido purificados por um jejum de quarenta dias.
Ao recordar estes grandes fatos, nós entendemos porque Nosso Senhor quis escolher quarenta dias para fazer o Seu jejum. Agora a instituição da Quaresma nos aparece em toda a sua majestosa severidade, e como um meio eficaz de aplacar a cólera de Deus e purificar nossas almas.
2. O combate espiritual.
A Igreja considera seus filhos durante a Quaresma como uma imensa armada, que combate dia e noite contra o inimigo de Deus. Com efeito, para obter a regeneração que nos fará dignos das santas alegrias pascais, devemos triunfar dos nossos três inimigos: o demônio, o mundo e a carne. E, para animar nossa confiança em Deus durante este combate, a Igreja nos propõe o salmo 90[vii], do qual ela tira, cada dia, vários versículos para as diversas horas do ofício.
3. Os três grandes temas da Quaresma.
Em primeiro lugar, nós iremos assistir o desenrolar da conspiração dos judeus contra o Redentor[viii]. De um lado as paixões que se agitamno seio da sinagoga vão manifestar-se de semana em semana; de outro, a dignidade, a sabedoria, a mansidão da augusta Vítima, nos aparecerão sempre mais sublimes e mais dignas de um Deus. Para seguir este drama divino, nós deveremos meditar nas leituras do evangelho que a Igreja nos irá propor a cada dia[ix].
Em segundo lugar, como a páscoa é o dia do batismo dos catecúmenos, devemos nos lembrar dos primeiros séculos do cristianismo, quando a quaresma era o tempo de preparação dos catecúmenos. A santa liturgia conservou o esquema desta antiga disciplina: escutando as magníficas leituras de ambos testamentos, cuidadosamente escolhidas pela Igreja, devemos agradecer a Deus por nos ter feito nascer nestes séculos, nos quais a criança não necessita esperar a idade adulta para provar as misericórdias divinas[x].
Por último, devemos lembrar-nos na Quaresma dos penitentes públicos, que, expulsos solenemente da assembléia dos fiéis na Quarta-feira de Cinzas, durante toda a Quaresma eram objeto da maternal preocupação da Igreja que, se eles merecessem, os admitia à reconciliação da Quinta-feira Santa. Um admirável corpo de leituras, destinado à sua instrução e a interessar os fiéis por eles, passará sob nossos olhos. Então nos lembraremos com quanta facilidade nos foram perdoadas as nossas culpas que, em séculos passados, só nos seriam remidas depois de duras e solenes expiações. Recordando-nos assim da justiça divina, que permanece imutável, não obstante as mudanças e condescendências da Igreja, nós sentiremos maior necessidade de oferecer a Deus o sacrifício de um coração contrito e de animar com sincero espírito de penitência as leves satisfações que apresentamos à divina Majestade.
4. O jejum, a oração e a esmola: a prática da Quaresma.
Nosso Senhor, com o Seu exemplo, nos convida à penitência, que consiste na contrição do coração e na mortificação do corpo. Foi o coração do homem que quis o mal, e o corpo muitas vezes o ajudou a realizá-lo. Além disso, sendo o homem composto por ambos, ele deve uni-los na homenagem que rende a Deus. O corpo deverá participar das delícias do céu, ou dos tormentos do inferno, portanto, não há vida cristã completa, nem verdadeira expiação, se o corpo não for associado à alma.
Porém, o princípio da verdadeira penitência está no coração, por isso a Igreja nos convida especialmente à conversão, como fundamento essencial a todos os atos deste santo tempo. Entretanto, esta penitência será ilusória se não juntarmos a homenagem do corpo aos sentimentos que ela inspira. O Salvador, na montanha, não se contentou somente em chorar por nossos pecados, mas os expiou pelo sofrimento do Seu corpo; e a Igreja, que é sua intérprete infalível, nos adverte que a penitência do nosso coração não será recebida, se nós não a juntarmos à prática do jejum e da abstinência.
Há dois outros meios de conversão que a Igreja, seguindo a Sagrada Escritura, nos propõe na Quaresma: a oração e a esmola[xi]. Assim como, sob o nome de jejum, a Igreja entende todas as obras de mortificação cristã, assim também, sob o nome de oração, ela entende todos os piedosos exercícios pelos quais a alma se une a Deus. Entre esses atos piedosos, estão principalmente a assistência diária ao Santo Sacrifício, a meditação, leitura espiritual, exame de consciência e, sobretudo, a confissão e a comunhão.
A esmola abarca todas as obras de misericórdia para com o próximo. Os Santos Doutores da Igreja a recomendaram unanimemente como um complemento necessário do jejum e da penitência durante a Quaresma. É uma lei estabelecida por Deus, à qual Ele mesmo dignou-se submeter, que a caridade exercida para com nossos irmãos, com o fim de agradar-Lhe, obtém de Seu coração paternal o mesmo efeito que se ela tivesse sido exercida diretamente para com Ele. É o que vemos no livro de Tobias (12, 8-9): A oração acompanhada de jejum e da esmola vale mais que todos os tesouros de ouro escondidos, porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna.
Por fim, um último meio de assegurarmos os frutos da Quaresma é o espírito de recolhimento e de separação do mundo. Para que não se dissipe a salutar impressão que sentimos no momento em que a Igreja nos impôs as cinzas, devemos nos abster dos divertimentos do século, das festas mundanas, das reuniões profanas. A sociedade cristã já não tem hoje em dia, durante a Quaresma, aquele exterior tão imponente de luto e de severidade que nós admiramos nos séculos de fé; mas, de Deus ao homem e do homem a Deus nada mudou. É sempre a mesma grande palavra: Se não fizerdes penitência, todos perecereis (Lc 13, 3).
Esforcemo-nos em empregar todos os cuidados para que esta palavra de Nosso Senhor encontre em nós um terreno fértil durante esta Quaresma.


Fonte:GUERANGER, (Dom) Prosper. Le Carême. L'Anné liturgique. Quatorzième édition. Paris: Librairie Religieuse H. OUDIN, 1900.


[i] Os pecadores públicos eram aqueles que davam escândalo público, como por exemplo, heresia, adultério, etc.
[ii] Os salmos penitenciais são: 6; 31; 37; 50; 101; 129; 142.
[iii] O jejum consiste em uma única refeição completa no dia (almoço OU janta), e o desjejum deve ser reduzido. Não são permitidos lanches entre as refeições, apenas uma colação antes de deitar-se (uma xícara de chá e alguns poucos biscoitos).
[iv] Mais informações sobre os costumes de origens apostólicas podem ser encontradas em Peregrinatio ad loca sancta, no Brasil “Peregrinação de Etéria. Liturgia e catequese em Jerusalém no século IV”, Editora Vozes.
[v] A Igreja não pode manter preceitos que não serão seguidos pela maioria dos fiéis, pois seria levá-los ao pecado. Desta forma, assim se pronuncia a Igreja sobre a penitência: “Os tempos e os dias de penitência no decorrer do Ano Litúrgico (tempo da Quaresma, cada sexta-feira em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja. Estes tempos são particularmente apropriados para os exercícios espirituais, as liturgias penitenciais, as peregrinações em sinal de penitência, as privações voluntárias como o jejum e a esmola, à partilha fraterna (obras caritativas e missionárias).” (CIC §1438). “O quarto preceito («Guardar abstinência e jejuar nos dias determinados pela Igreja») assegura os dias de ascese e de penitência que nos preparam para as festas litúrgicas e contribuem para nos fazer adquirir domínio sobre os nossos instintos e a liberdade do coração.” (CIC §2043).
[vi] A secularização está destruindo os valores e esvaziando a noção de Deus das pessoas, inclusive das famílias cristãs.
[vii] “Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: Sois o meu refúgio e a minha fortaleza, meu Deus, em quem eu confio.” (Sl 90, 1-2). Este é o salmo de confiança daquele que serve a Deus, e é cantado nas Completas de Domingo, Solenidades e Festas do Rito Romano em sua forma Extraordinária (Rito Tridentino).
[viii] NB: com relação à conspiração dos judeus seja entendido o que a Igreja Católica SEMPRE ensinou: os verdadeiros responsáveis foram os líderes do templo e seus seguidores, e não o povo em geral. O antissemitismo não possui legitimação teológica, e é condenado pela Igreja sob pena de excomunhão conforme o decreto de Gregório X, datado de 07 de outubro de 1272.
[ix] Este texto foi baseado na obra L’Année Liturgique, de Dom Prosper Guéranger (1806-1875), portanto há muitos elementos do Rito Tridentino, no qual existe uma liturgia quaresmal, isto é, uma série de quarenta Missas (Intróito, orações, leitura e evangelho próprios), exclusivas para o tempo da Quaresma. Ainda assim, as lições de Dom Guéranger são válidas e essenciais para uma digna e correta vida cristã.
[x] A Quaresma é um tempo neocatecumenal, onde cada fiel se prepara para renovar o seu batismo, a sua identidade cristã.
[xi] Os meios de conversão ajudam a combater as três concupiscências (carne, soberba e olhos): pelo jejum combatemos a sensualidade; com a oração combatemos a soberba e com a esmola, combatemos a avareza.


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