Carta do Pe. Anderson Batista ao Papa sobre a CF - 2010


Carta do Revmo. Pe. Anderson Batista da Silva ao Papa Bento

XVI sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010

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Niterói, 12 de dezembro de 2009.
Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Imperatriz das Américas

Beatíssimo Pai,

Como último dos vossos filhos, apresento-me genuflexo ante Vossa Santidade, em submissão total ao vosso magistério e a vossa pessoa. Em nome próprio e de vários fiéis perplexos que me procuraram, envio a V.S. esta tão premente carta.
Acompanhamos, como filhos indignos da Igreja, vossas palavras e ações que nos acalentam e confortam, nos confirmam na fé e nos entusiasmam na nova evangelização que o mundo atual tanto necessita.

Com muita alegria ouvimos vossas palavras na Missa do Início do vosso Ministério Petrino, pedindo a todos os cristãos que rezássemos por V. S. para que não temesse diante dos lobos e fugisse1.

Desde aquele instante, Santo Padre, nós e muitos no mundo inteiro, rezamos e oferecemos sacrifícios nesta tão importante
intenção. Os lobos existem! Foi a impressão que nos ficou gravada. Mais ainda, eles estão tão perto de nós que poderiam, se fosse
possível, ferir o Pastor Universal da Igreja.

Mas acreditamos nas promessas de Nosso Senhor: “As portas do inferno não prevalecerão contra Ela”(Mt 16,18).
Santo Padre, vimos até os pés de V. S. com um aperto em nossos corações e com uma angústia em nossas almas. Vemos que
muitas de vossas orientações, palavras e conselhos estão caindo no vazio do silêncio e do esquecimento, quando não da omissão e
da desobediência explícita, até mesmo, custa-nos dizer, dentro da nossa própria Igreja.

Muitos católicos se levantam contra o Sucessor de Pedro com palavras e ações. Tantos seriam os motivos e situações a apresentar a V. S., em campos doutrinários, litúrgicos e morais. Contudo, brada-nos a atenção neste momento algo que sintetiza este espírito de falta de comunhão com o Sucessor de Pedro e da crise de consciência que nos afeta.

Todos os anos, durante o tempo litúrgico da Quaresma, a Igreja no Brasil promove uma Campanha Nacional voltada a algum tema específico que busca orientar o agir dos cristãos neste tempo. Há muito, Santo Padre, que nos vemos perplexos diante das temáticas e textos veiculados e apresentados como orientadores destas campanhas.

Referimo-nos à Campanha da Fraternidade. Neste próximo ano de 2010, nossa perplexidade aumenta. Além de apresentar-se como uma campanha conjunta com outras igrejas cristãs, membros do CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs –, fato que deixamos de abordar, o que nos preocupa, Santo Padre, são os objetivos apresentados pelos textos oficiais que a promovem.

Ainda que o texto oficial apresente como objetivo geral colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas Cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão2, são as propostas concretas apresentadas que nos preocupam.
Concretamente, a Campanha da Fraternidade Ecumênica apóia e reforça através de uma ampla mobilização, a campanha nacional pelo Limite de Propriedade da Terra, em defesa da Reforma Agrária e da Soberania Territorial e Alimentar para que sejam
estabelecidas outras prioridades no uso da terra e no desenvolvimento solidário da sociedade brasileira.3

Reconhecemos, Santidade, que, de fato, algo precisa ser feito para diminuir as injustas desigualdades existentes no mundo; algo para aliviar a carência dos mais necessitados. Porém, nós nos sentimos defraudados e desiludidos, quando se deixa de falar de certas verdades fundamentais da fé, como do pecado, da graça, da vida teologal e dos novíssimos4 fazendo nossas comunidades eclesiais caírem
insensivelmente na auto-secularização. Nós nos sentimos defraudados e desiludidos quando vemos nossos pastores de almas voltarem-se para debates sobre temas como igualdade, liberdade, economia, solidariedade, reforma agrária, mostrando-se disponíveis a fazer concessões e descobrir campos de cooperação com movimentos sociais de pressão e invasão de propriedades privadas.

Com efeito, sabemos que a Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado5. E seguindo vossos ensinamentos, reconhecemos que Jesus não era Espártaco, não era um guerreiro em luta por uma libertação política, como Barrabás ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus – Ele mesmo morto na cruz
– tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores6. A tentativa de fazer de Jesus um messias político-libertador e da Igreja um instrumento para realizar na História sua utopia, parece estar presente na Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010 com seu lema “Economia e Vida” e é exatamente isto o que nos angustia.

Reconhecemos com dor, Santidade, que é real e patente o fascínio ainda atual do materialismo de Marx onde a crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política (...)[pois] Marx descreveu a situação do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para a revolução. E não só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848,
também a iniciou concretamente. A sua promessa, graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje7. Este fascínio, Santo Padre, faz-se ainda muito presente nos ambientes eclesiásticos e teológicos de nosso querido país: trata-se da tão conhecida e já advertida “teologia da libertação”.

Com quanta alegria, Santo Padre, lemos vosso discurso orientador aos bispos brasileiros do Sul do País, no qual recorda a importância da releitura da Instrução Libertatis Nuntius da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da teologia da libertação. Nela apresenta-se o perigo que comporta a assunção acrítica, feita por alguns teólogos de teses e metodologias provenientes do marxismo. As suas
seqüelas mais ou menos visíveis feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa, anarquia fazem-se sentir ainda, criando nas vossas comunidades diocesanas grande sofrimento e grave perda de forças vivas. Suplico a quantos de algum modo se sentiram atraídos, envolvidos e atingidos no seu íntimo por certos princípios enganadores da teologia da libertação, que se confrontem novamente com a referida Instrução, acolhendo a luz
benigna que a mesma oferece de mão estendida; a todos recordo que «a regra suprema da fé [da Igreja] provém efetivamente da unidade que o Espírito estabeleceu entre a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, numa reciprocidade tal que os três não podem subsistir de maneira independente» (João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 55). Que, no âmbito dos entes e comunidades eclesiais, o perdão
oferecido e acolhido em nome e por amor da Santíssima Trindade, que adoramos em nossos corações, ponha fim à tribulação da querida Igreja que peregrina nas Terras de Santa Cruz.8 (Grifos meus)

Impressiona-nos, de modo particular, a atualidade de tal afirmação, contida na supracitada Instrução: O angustiante sentimento da urgência dos problemas não deve fazer perder de vista o essencial nem fazer esquecer a resposta de Jesus ao Tentador (Mt 4, 4): ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”(Dt 8, 3). Assim, diante da urgência de compartilhar o pão, alguns se vêem
tentados a colocar entre parênteses e a deixar para o amanhã a evangelização: em primeiro lugar o pão, a Palavra para mais tarde. É um erro mortal separar ambas realidades ou contrapô-las. Por outra parte, o sentimento cristão sugere espontaneamente o que deve ser feito num e noutro sentido. Para outros, parece que a luta necessária pela justiça e pela liberdade humanas, entendidas em seu sentido econômico e político, constitui o essencial e a totalidade da salvação. Para estes, o Evangelho se reduz a um evangelho puramente terrestre.9 Nesta tentação de ver no Evangelho um evangelho puramente terrestre, parece ter caído a Campanha da Fraternidade ao longo dos anos. Conhecemos o ensino da Igreja sobre a função social de qualquer forma de propriedade privada10. No entanto,

Santo Padre, apresentamos alguns textos da atual campanha que nos parecem inconciliáveis com a Doutrina da Igreja e com os vossos últimos pronunciamentos aos bispos do nosso querido país:

· Para muitas pastorais, a solidariedade pode ser vivida em três dimensões: Solidariedade Assistencial, Solidariedade Promocional e
Solidariedade Libertadora. Na primeira, dá-se o peixe, cobrindo uma necessidade e um direito imediato; na segunda, ensina-se a pescar; na
terceira, luta-se junto com os excluídos para ter acesso ao rio e pesca-se com eles.11

· Sim a todas as iniciativas e movimentos que pressionam em favor de uma Reforma Agrária efetiva, a qual é necessária para que a terra seja
cultivada em pequenas e médias propriedades coletivas ou individuais.12

· Sim a articulação de movimentos sociais que exigem a definição constitucional do tamanho máximo de propriedades nas diferentes
regiões do país pelo Congresso Nacional ou através de plebiscito, caso o poder legislativo não assuma a responsabilidade de tomar tal decisão.13

· Sim às reformas agrária e urbana.14

· Muitos pequenos produtores já se deram conta que não conseguirão lugar entre os grandes e, tomando outro rumo, avançam em direção à
agroecologia. Esse é o caso, por exemplo, dos assentados ligados às conquistas de reforma agrária do MST e de outros movimentos de lutas pela terra.15

· Nós, igrejas e crentes, somos chamados a encarar a realidade do mundo a partir da perspectiva das pessoas, particularmente das pessoas
oprimidas e excluídas. Somos chamados a ser comunidades nãoconformistas e transformadoras.16

· Limitar a acumulação de capitais e do patrimônio é sinal de mudança de uma economia individualista para uma economia de solidariedade.
Concretamente, a CFE apóia e reforça através de uma ampla mobilização, a Campanha Nacional pelo Limite de Propriedade da
Terra, em defesa da Reforma Agrária e da Soberania Territorial e Alimentar para que sejam estabelecidas outras prioridades no uso da
terra e no desenvolvimento solidário da sociedade brasileira.17

· A introdução desta medida resultaria numa disponibilidade imediata de mais de 200 milhões de hectares de terra para as famílias acampadas,
sem despender recursos públicos para a indenização dos proprietários.18

· Jesus deu sua vida para que se descubra e se busque a melhor forma de organizar o convívio entre pessoas e com toda criação.19

· Creio na Santa Igreja Universal.20 (Grifos meus)

Santo Padre, além desses, muitos outros assuntos relacionados à Santa Igreja nos preocupam e nos fazem sofrer. Contudo a CFE 2010, em razão de sua grande influência e alcance e pelo perigo de suscitar rebelião, divisão, dissenso, ofensa, anarquia, criando
em nosso país um grande sofrimento e grave perda de forças vivas21, é o que mais nos aflige no presente momento.

Compartilhando os sofrimentos da querida Igreja que peregrina nas Terras de Santa Cruz, rogamos vossa paternal atenção ao tema que tantas aflições nos suscitaram. E ousamos pedir, Santidade, um olhar especial sobre todo o conteúdo proposto pela CFE 2010, esperando a Voz do Supremo Pastor que nos indique o caminho a seguir, que desde já abraçamos. Ouvimos de V.S. este conselho: quando surgirem controvérsias na Igreja, a referência ao ministério petrino dá garantia de fidelidade à doutrina e dá serenidade e liberdade interior.22
Enviamos em anexo o texto oficial da CFE 2010, junto com seu vídeo explicativo. Além disso, fomos surpreendidos pela existência de um filme intitulado “O anel de tucum”, produzido no ano de 1993, apoiado por vários setores do episcopado nacional. Este filme pretende promover e convencer da necessidade da teologia da libertação. Caso seja relançado no próximo ano, junto a CFE, este filme trará para nossas dioceses uma confusão sem limites previstos.

Numa recente audiência, em nome de todos os católicos que procuraram, preocupados com a previsível confusão que se aproxima, apresentei ao Exmo. e Revmo. D. Fr. Alano Maria Pena, OP, Arcebispo Metropolitano de Niterói, o problema de consciência que a próxima Campanha da Fraternidade está trazendo para inúmeras pessoas. Nesta mesma ocasião, apresentei-lhe o texto desta presente carta, a qual ele deu seu placet ao conteúdo e à iniciativa. Com o inteiro aval de meu arcebispo, envio esta carta com uma cópia para o Exmo. e Revmo. D. Lorenzo Baldisseri, Núncio Apostólico no Brasil e para alguns outros prelados, seguindo a orientação de meu prelado.

Uma vez mais, aos pés de Vossa Santidade, genuflexos, osculamos vossas mãos, garantimos nossa fidelidade e submissão, ao mesmo tempo em que imploramos vossa Benção Apostólica.

Comigo, o último de vossos filhos, se juntam um sem número de fiéis perplexos,


Pe. Anderson Batista da Silva
[Então] Vice-reitor do Seminário de São José, da Arquidiocese de Niterói.



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1 Cf. Bento XVI, Homilia pelo início do ministério Petrino, (2005)
2 CONIC – Conselho nacional das igrejas cristãs do Brasil, Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010:
Manual. p. 9
3 Idem. p.74
4 Bento XVI, Discurso aos bispos da conferência episcopal do Brasil dos regionais oeste 1 e 2 em visita
“Ad limina apostolorum” (7 de setembro de 2009)
5 Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est, 28.
6 Bento XVI, Carta enc . Spe Salvi, 4.
7 Idem, 20.
8 Bento XVI, Discurso aos prelados da conferência episcopal dos bispos do Brasil dos regionais sul 3 e
sul 4 em visita “Ad limina apostolorum” (5 de dezembro de 2009)
9 Congregação para a doutrina da fé, Instrução sobre alguns aspectos da “teologia da libertação” -  Libertatis Nuntius,VI,3 (6 de agosto de 1984)
10 Cf. Pontificio Conselho Justiça e Paz. Compendio da Doutrina Social da Igreja; tradução CNBB; 4 ed.
– São Paulo: Paulinas, 2008. n. 178
11 CONIC – Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil, Campanha da Fraternidade Ecumênica
2010: Manual. p. 120
12 Ibid. p. 113
13 Ibid. p. 113
14 Ibid. p. 115
15 Ibid. p. 97
16 Ibid. p. 49
17 Ibi. p. 74
18 Ibid. p. 175
19 Ibid. p. 107
20 Ibid. p. 358
21 Cf. Bento XVI, Discurso aos prelados da conferência episcopal dos bispos do Brasil dos regionais sul 3 e sul 4 em visita “Ad limina apostolorum” (5 de dezembro de 2009)
22 Cf. Bento XVI, Audiência Geral, 09 de dezembro de 2009.

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